ALÉM DAS ESTAÇÕES
Procurei-te sem conhecer teu nome.
Atravessei continentes erguidos dentro de mim,
onde os dias eram rios longos
e as noites, jardins adormecidos sob a geada.
Caminhei por estradas desenhadas pelo tempo,
entre pontes suspensas sobre incertezas
e horizontes que pareciam recuar
sempre que eu julgava estar chegando.
Sem saber,
trazia tua ausência guardada
como uma carta antiga que o destino escreveu
antes mesmo do meu nascimento.
Houve invernos em que minha alma
era uma casa iluminada por uma única janela,
esperando a chegada de uma estrela tardia.
E houve silêncios tão extensos
que o eco dos meus próprios pensamentos
parecia conversar com a eternidade.
Ainda assim,
em algum lugar além das horas,
teu caminho avançava em direção ao meu,
como dois rios distantes
que desconhecem a existência um do outro,
mas pertencem ao mesmo oceano.
Então vi teu sinal.
Não surgiu como tempestade,
nem como relâmpago rasgando o céu.
Chegaste como a aurora chega às montanhas:
tocando cada sombra com delicadeza,
transformando a paisagem sem fazer ruído.
E compreendi.
Todos os desvios foram capítulos.
Todas as quedas, aprendizado.
Todas as páginas incompletas
preparavam espaço para a tua escrita.
Tu eras a palavra que faltava
ao poema que a vida vinha compondo.
A nota escondida na canção dos anos.
O porto secreto sonhado pelos navegantes
quando as águas se tornavam vastas demais.
Hoje,
quando contemplo a longa travessia,
já não vejo espinhos ou tempestades.
Vejo constelações.
Cada lembrança tornou-se estrela,
e juntas desenham o mapa exato
que me conduziu até ti.
Se o destino é um grande livro,
teu nome estava gravado
na margem dourada de suas páginas.
E se a existência é uma árvore antiga,
então fomos sementes carregadas pelo vento,
crescendo em campos diferentes,
até que a estação perfeita
nos ensinasse a florescer lado a lado.
Por isso não peço riqueza ao tempo.
Peço apenas que ele caminhe devagar,
como um velho jardineiro cuidadoso,
permitindo que cada amanhecer
acrescente uma nova flor ao nosso caminho.
Pois depois de tantas luas,
de tantas estradas
e tantos céus atravessados,
descobri que algumas pessoas
não chegam para mudar um dia.
Chegam para transformar
todas as estações da vida.
Escritora Luzia Couto
Lei 9.610/98
14/10/26
Ipanema Minas Gerais Brasil
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