Canção à Beira-Mar
O dia nasceu vestido de ouro,
e o sol, qual antigo pintor dos horizontes,
espalhava sobre as águas
tintas brilhantes de eternidade.
Seguíamos pela estrada
como dois viajantes conduzidos pelo encanto,
enquanto as paisagens desfilavam pela janela
como páginas iluminadas de um livro sem fim.
O tempo perdeu a importância.
As horas, rendidas à beleza,
deixaram de contar seus passos,
e apenas o coração registrava
a grandeza daquele instante.
Então surgiu o destino,
abraçado ao azul infinito do oceano.
E lá estávamos nós,
percorrendo a avenida dos sonhos,
como duas aves livres
desenhando círculos de alegria
sob o olhar sereno do céu.
Cada parada era uma memória.
Cada fotografia,
uma pequena moldura capaz de guardar
o perfume invisível da felicidade.
O mar cantava.
As ondas escreviam versos efêmeros na areia.
E nós caminhávamos entre eles,
como personagens de uma história
que o próprio vento desejava narrar.
Quando a tarde começou a recolher suas luzes,
sentamo-nos diante do crepúsculo.
As taças erguidas refletiam o poente,
e nele pareciam flutuar
todos os sonhos que um dia cultivamos.
Ao redor,
o mundo desacelerava.
Dentro de nós,
primaveras inteiras floresciam.
A noite abriu seus jardins estrelados,
e o silêncio tornou-se uma canção suave,
dessas que apenas as almas afins conseguem ouvir.
Conversamos com a lua.
Compartilhamos lembranças.
Tecemos planos com os fios invisíveis da esperança.
E, pouco a pouco,
o universo pareceu reduzir-se
ao espaço exato entre teu olhar e o meu.
Veio o amanhecer.
Mas não trouxe despedidas.
Trouxe apenas mais luz
para aquilo que já brilhava.
As horas passaram como nuvens mansas,
e cada palavra trocada
era uma nova pétala acrescentada
ao jardim que construíamos juntos.
Descobri então
que certos encontros não dependem da juventude,
da pressa ou da estação.
São vinhos raros amadurecidos pelo tempo,
constelações que demoraram anos para se formar,
rios que atravessaram longas distâncias
para enfim encontrar o mesmo mar.
E compreendi que nosso sentimento
não se mede pelos calendários.
Ele se parece com o oceano que contemplamos:
profundo,
sereno,
infindável.
Pois basta um gesto,
um sorriso,
um simples toque de presença,
e todas as marés da vida
voltam a cantar a mesma canção.
Escritora Luzia Couto
Lei 9.610/98
16/10/26
Ipanema Minas Gerais Brasil
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Deixe seu comentário aqui. Ele será moderado e em seguida liberado. Obrigado.