Poema Ventania


 Ventania


Se eu fosse o vento,

talvez chegasse devagar,

como quem pede licença às cortinas

 desperta as flores sem que percebam.

Mas fui feito de horizontes largos.


Carrego oceanos na respiração

e tempestades adormecidas nos olhos.

Meu nome é Imensidão.

Nasci onde os mapas terminam

e os sonhos começam a inventar caminhos.


Meu sobrenome é Intensidade.

Por isso nunca aprendi

a sentir pela metade,

 admirar pela metade,

a viver pela metade.


Quando gosto,

sou maré cheia procurando a lua.

Quando sonho,

sou rio rompendo margens

para alcançar o oceano.


Há quem deseje a leveza da brisa.

Eu compreendo.

A brisa consola.

Acalma.

Permanece discreta.


Mas eu sou feito de outra matéria.

Sou dessas forças que atravessam estações,

que balançam árvores antigas

e fazem as nuvens mudarem de lugar.

Ainda assim,

por trás de toda ventania,

existe um silêncio.

Um lugar sereno

que poucos conseguem encontrar.


E é ali que guardo

o que tenho de mais precioso:

a capacidade de amar

com a mesma grandeza

com que o céu abraça o horizonte.

Pois sou assim.

Vasto demais para caber em molduras.


Profundo demais para caber em palavras.

E, ainda que o mundo me chame de ventania,

há ternura em cada tempestade

quando ela sopra na direção certa.


Escritora Luzia Couto 

Lei 9.610/98

26/10/26

Ipanema Minas Gerais Brasil

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